Esta é a minha luta: o diagnóstico

Irina. 36 Anos. Mãe do Tomás, companheira de vida do Ruben, enfermeira de coração, filha, irmã, tia, cunhada, amiga e Mulher de mim mesma.

Primavera de 2010. Estava a viver um dos momentos mais felizes da minha vida. Tinha acabado de ser mãe há 6 meses. Desde miúda que me recordo que, quando me faziam aquela típica pergunta do “O que é que queres ser quando fores grande?”, pensar ou responder que queria ser mãe! Andava cansada, com dores de cabeça frequentes. Nada de estranho para quem estava a viver a maternidade tão recentemente, aliada ao trabalho por turnos que a minha profissão exigia. Comentei com familiares mais próximos mas ficou por aí. Até ao dia em que ficou claro que alguma coisa se passava, embora estivesse longe de imaginar. Na verdade, aos 28 anos e, embora a minha profissão me relembre diariamente da fragilidade e finitude da vida, ninguém perde muito tempo a pensar nessa possibilidade e tão pouco está preparado para ela (se é que algum dia estamos).

Era a hora do banho. Estava a cuidar do meu bebé, quando senti, por segundos, que o meu corpo não me pertencia, não me obedecia, e perdi a visão nesse período. Recordo-me de ouvi-lo chorar e querer reagir, ajudá-lo, mas não conseguir. Era como se estivesse congelada e presa no meu próprio corpo. Tal como começou, terminou. Sem aviso prévio. Um tipo de crise epilética, ausência ou crise focal. Sei hoje que foi do que se tratou. Estávamos sozinhos em casa. Fiquei assustada. À distância de um telefonema, os MEUS, mais uma vez, como em toda a minha vida, não me falharam. Em pouco tempo, estavam ali. Nesse mesmo dia, fiz a minha primeira TAC. Achei aquilo um exagero. Bolas, também não era para tanto. Ia com a ideia de no final do exame pedir para falar com alguém mas não foi preciso. Recordo-me que me estava a vestir quando alguém me veio dizer que o médico queria falar comigo. “Irina, encontramos aqui uma imagem pouco conclusiva e sugerimos que faça uma ressonância o quanto antes”. Sai dali e fui diretamente para Caselas. A RM revelou uma “lesão patológica” que precisava de ser vigiada. Tinha de regressar em 6 meses. Segui a minha vida, sem novas queixas e sem pensar muito no assunto. 6 meses depois, lá estava eu e as coisas começavam a ficar mais claras: “Glioma de baixo grau”. Procurei um neurocirurgião. Na primeira consulta no Hospital, estávamos à volta de uma mesa redonda, eu, o Ruben e o médico. Aquele silêncio inicial. Olhar para as imagens. Ler o relatório. As suas primeiras palavras foram “Bem, Irina isto não é muito simpático”. Alertou-me para o risco das complicações mais frequentes. A cirurgia, àquela data, não era opção. O tumor estava localizado muito profundamente e era demasiado arriscado. Também podia viver anos sem nada me acontecer. Ou não. Tinha que passar a viver com essa incerteza (que na verdade é a de TODOS).

Poderia estar para aqui a filosofar e falar do quão chocada fiquei nesse momento e que esse diagnóstico me caiu que nem uma bomba. Mas não foi nada disso. Não tive a noção das coisas com a clareza que as tenho hoje e provavelmente pensarei o mesmo daqui a algum tempo. Trata-se de um processo de adaptação, de encaixe desta nova realidade. É preciso dar tempo para que se perceba o que se passa. Posso dizer que não me lembro de ter chorado quando soube. Lembro-me de passado alguns anos e, com a evolução da situação, começar a pensar de uma forma mais reticente sobre o assunto. Mas sempre sem dramas. Não tenho pachorra para isso. É uma coisa minha. Não sei explicar. Nada forçado. Tendo sempre a pensar que tudo vai correr bem e descomplico naturalmente.

“Faça a sua vida! Não é para se esquecer disto mas também não é para estar sempre a pensar. Qualquer coisa de novo e liga-me”. Foi o que fiz. Seguimos em frente. Pedi o meu marido em casamento. Casámos. Viajámos. Passeámos. Investi na minha carreira e na minha formação. O nosso filho crescia e tornava-se numa criança cheia de luz. Vivíamos a vida em família numa simplicidade que nos bastava. Sentia me bem, feliz e realizada.


(Continua)

Irina.

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8 comentários em “Esta é a minha luta: o diagnóstico

  1. Querida Irina… A vida prega-nos partidas. Coloca-nos em situações que nos fragilizam assim como aos que nos rodeiam. Falo com a mãe e com a Tânia,sempre na mente que … depois falarei contigo. … ainda não falei. Depois de ouvir este relato na primeira pessoa fiquei sem chão. Figura franzininha mas com alma do tamanho do mundo. Foi preciso ” ler-te” para reconhecer minha encapotada cobardia em te dirigir aquela palavrinha que esperavas de mim e de muitos ” mins “. A família a que pertences sempre foi muito especial,já vivemos coisas boas e menos boas. A distância não é motivo de separação aos que se querem bem.

    Um afago,um abracinho um Xi da Maria Isabel

  2. Li de uma assentada e a cada palavra a admiração aumentava pela forma como encarou a situação! Espero ansiosa pelo desenrolar e que tudo seja o mais positivo possível ???

  3. Quem conhece esta história de Vida, sabe que está muito está tão bem retratada. Força…para continuares.
    Tive o prazer de conviver uns anos perto de ti. Estás no meu coração!

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