Diário de uma Enfermeira quarentona em tempos de pandemia: Parte XII

Mais um dia.

Menos um dia.

Mais dias.

Menos dias.

Mais um dia para quem fica.

Menos um dia para quem foi.

E a 16 de novembro foram muitos.

Demasiados.

Demasiados que falam a minha língua.

Bastantes que conhecem a minha cidade, que percorreram ruas que eu também percorri, algures neste país, pequeno país, virado para o mar.

“Mar, metade da minha alma é feita de maresia” (Sophia M.B.A), como muitas metades destas almas que hoje partiram…

Triste Dia. Quantos mais virão?

Não sei. Ninguém sabe.

Ninguém sabe.

Apenas sei que foi mais um dia.

Enquanto muitos choram a perda, outros choram, com a força que o peito ainda consegue amparar, a felicidade de poder ver um filho através do ecrã de um telemóvel.

As lágrimas caíam-lhe molhando a máscara, enquanto a cânula de oxigénio, lhe dava a vida (tinha acabado de lhe dar a boa nova. “Vai sair da UCI. Vai para a enfermaria”).

E ela pediu-me.

O telefonema.

Não foi um pedido.

Suplicou.

Não precisava. De todo.

Perguntou se eu era mãe.

Com medo que eu não acedesse.

O nó na garganta não deixou que a voz saísse.

Afirmei com a cabeça.

Digitei o número.

Mal apareceu o filho, tirei-lhe a máscara para ele ver o sorriso daquela mãe que Deus não quis levar.

E foi um dia Bom!!

Nota sobre a autora:

Chamo-me Joana. Tenho 40 anos e sou muitas coisas… filha, irmã, enfermeira, formadora…mas a mais difícil de todas… sou Mãe, Boadrasta e Mulher.

Escrevo para libertar o que me vai cá dentro…

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7 comentários em “Diário de uma Enfermeira quarentona em tempos de pandemia: Parte XII

  1. Obrigado ser assim a forma como escreve revela a pessoa que é. Continue a fazer o seu melhor pois tem um dom que poucos têm e é isso que a toma diferente e tudo o que faz é com Amor logo tudo o que toca ganha vida e vai salvar muitas ainda. Força que Deus a acompanhe sempre. Um grande beijinho

  2. Um beijinho carregado de energia e de força para esta profissional de saúde e seus colegas. Ajoelho—me perante vocês só para pedir desculpa por tantos e tantos que não estão a ter respeito por vocês levando uma vida demasiado há vontade. Beijinhos

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