Diário de uma Enfermeira quarentona em tempos de pandemia: Parte X

Passaram-se seis meses desde o meu último turno nos Cuidados Intensivos Covid.
Durante todo este tempo a sombra do regresso não me abandonou. Meses em que tentei desanuviar esta anormalidade de vida.

Fiz as férias de Verão possíveis, os 5.
Tentei estar algum tempo, pouco tempo, com os meus pais.
Celebrei à distância o primeiro dente do primeiro sobrinho.
Fui a Fátima a pé numa fugida com o primo e com o amigo (viagem que se adiou em maio).
Os telefonemas com os amigos foram poucos, mas importantes.
Parei para ver as minhas filhas a crescer de forma assustadoramente rápida e confusa.
Coloquei em dia a tetralogia da Elena Ferrante que há meses esperava por mim na mesa de cabeceira.
As conversas com o marido foram dissertações sobre as mudanças deste ano pandémico; memórias sobre o que mudou desde a nossa última viagem em novembro passado à Tailândia e este novembro que se aproxima.

Este novembro que se aproxima.
Escrevo-vos hoje sentada na minha sala virada para o mar, com os olhos nas letras do teclado e o pensamento no meu regresso.
Faltam 2 dias para este novembro de regresso.

Um regresso que não sei por quanto tempo se perdurará.
Segundo as chefias sou requisitada para os Cuidados Intensivos Covid a partir de 1 de novembro.
Volto a sair da minha área de conforto que é o serviço de Oftalmologia, tendo noção que vários colegas meus há meses que não sabem o que isso é. Conforto. (Ou talvez até saibam! Porque os enfermeiros que sempre trabalharam nos Cuidados Intensivos são apaixonados por este ambiente pesado, complexo, barulhento. As opiniões divergem pois as vidas de cada um de nós também seguem caminhos diferentes).

Mas a minha vai mudar! O horário muda (passo a fazer noites intermináveis e esgotantes); o cansaço físico e psicológico vai-se acentuar refletindo-se cá em casa no humor e nas gargalhadas; vou deixar de puder ir buscar as miúdas à escola; muitos dos jantares vão ser take away; as videochamadas com a família vão aumentar….

Perguntam-se vocês: És obrigada a ir?
Não, não sou obrigada a ir. Mas sou enfermeira! (Muitos saberão o que isto quer dizer).

Enfim, começo mais uma dezena de partes deste diário, que desejei não voltar a escrever.
E como dizia a Rita no seu post: “nos próximos tempos a vida dos pais e dos filhos vai ser um sobressalto”. E concordando plenamente com ela “não estamos todos no mesmo barco” e a minha tempestade interior vai regressar levando comigo os do meu coração.

Nota sobre a autora: 

Chamo-me Joana. Tenho 40 anos e sou muitas coisas… filha, irmã, enfermeira, formadora…mas a mais difícil de todas… sou Mãe, Boadrasta e Mulher. Escrevo para libertar o que me vai cá dentro…

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7 comentários em “Diário de uma Enfermeira quarentona em tempos de pandemia: Parte X

  1. Tive, tenho, e terei para sempre, bem dentro de mim, o sonho, que um dia deixei ficar para trás, o de ser enfermeira.
    Ao ler o seu texto, correu em mim um forte desejo de lhe dar abraço, e sussurrar-lhe ao ouvido, “… Tudo vai correr bem…”.
    Não saberemos nunca quais os seus medos e suas angústias, numa verdadeira e “real” realidade, porém, lembre-se de quando em vez que algures, existem pessoas que continuam a viver, agradecendo o facto de a ter conhecido, enfermeira…

  2. Muita força, muita coragem… E muito obrigada pelo testemunho desconcertante, mas necessário para quem pensa que só acontece aos outros, enfim 😔….
    Que o sol brilhe nas suas noites escuras, e pense sempre nos momentos de alegria que tem para viver com os seus…
    Infinitamente grata por todo o seu amor ao próximo ❤️🍀…

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