Défice de atenção e Hiperatividade – Uma nova visão!

Na minha perspetiva clínica, o défice de atenção deve ser enquadrado nas mais recentes teorias e perspetivas da neuro diversidade, e não a ser visto como um transtorno do neuro desenvolvimento. Repare-se que a prevalência mundial em crianças com menos de 7 anos, com estas características, é de 5.8%.

Os atuais modelos empresarias ou académicos, apesar de se terem feito discretas alterações nos seus funcionamentos, continuam a discriminar os adultos, jovens e crianças com TDAH (Transtorno de Défice de Atenção e Hiperatividade), como pessoas com menos capacidades que as ditas “normais”.

É na realidade um problema social que vem de longe, e já o vimos associados a outras “diferenças”.

Existe uma tendência para não lidarmos bem com as diferenças e tentamos nivelar tudo e todos dentro de parâmetros da suposta “normalidade”.

Fazemos isso no nosso dia a dia mesmo em relação a, por vezes, simples características comportamentais. Facilmente encontramos exemplos de alguém, por exemplo, mais “calado” ou que tem um perfil de comportamento introvertido, a ser quase forçado a alterar a sua caraterística genética comportamental para se comportar como alguém com um perfil mais extrovertido. Ou seja, em vez de tentaremos aproveitar ou apreciar as características do indivíduo, tentamos alterá-las para algo socialmente mais aceite ou “normal”.

Na perspetiva da Genética Comportamental e da Psicologia Evolutiva alguns psiquiatras e neuropsicólogos explicam a continuidade deste traço genético da TDAH através de uma divisão interessante:

Os “colonos” e os “exploradores” – que traduzem dois tipos de temperamentos base.

No geral nós somos todos “colonos” e se as condições são propícias, instalamo-nos e acomodamo-nos. Mas a evolução também precisa que alguns da nossa espécie tenham as características contrárias, que sejam os “exploradores”, porque em tempos de crise, são pessoas com estas características que encontram novas oportunidades, novos recursos e novas “terras” para explorar.

Faz-me muito sentido esta teoria, porque se observarmos o que nos diz a literatura e aquilo que é a expressão genético-comportamental dos indivíduos com TDAH, que tratei na minha clínica, vamos também encontrar características como:

Hiper-Concentração, se o cérebro de uma pessoa com TDAH for corretamente estimulado, vamos ter o que chamamos de concentração “lazer” por longos períodos de tempo.

Pensamento Criativo, divergente, não linear, com capacidade de sintetizar e comparar dois ou mais conceitos diferentes.

Curiosidade de explorar aquilo que a vida tem para oferecer e levantar todas as “pedras”.

Tolerância a frustração, capacidade de insistir, mesmo depois de falhar.

Impulsividade, comportar-se intuitivamente e rapidamente, perante a incerteza.

Multitarefas, desempenhar várias tarefas ao mesmo tempo.

Trabalhar sob pressão, é neste tipo de ambiente que um individuo com TDAH se destaca do “resto”.

 

Na minha prática clínica tenho avaliado e tratado, com sucesso, inúmeras crianças, jovens e adultos, através da utilização de técnicas como a modelação de comportamento, a estimulação cognitiva computadorizada ou NeuroBioFeedback. Estas técnicas permitem que estes indivíduos possam utilizar a seu favor as suas neuro características e criar estratégias para lidar com a sua falta de concentração para estímulos pouco interessantes, ajudando também a apreciar, integrar e aprender a tornar esses momentos menos “estimulantes” em aprendizagem útil ou a aprender a priorizar e colocar método nas avalanches de excelentes ideias e projetos que por vezes “inundam” o seu cérebro.

O primeiro passo para a integração social é o mais importante – a avaliação – é aqui que se cometem as maiores falhas que dão origem a erros em cima de erros que podem durar anos e ter consequências nefastas para o indivíduo com TDAH.

É fundamental que exista uma avaliação de uma equipa multidisciplinar de Neuropsicologia e Neurologia e, em alguns casos, Psiquiatria, para realizar uma avaliação Neuro Cognitivo-Comportamental computadorizada com medição não só da atividade elétrica do cérebro, mas também psicofisiológica, de forma a se conseguir não só traçar o perfil Neuro Cognitivo do indivíduo, mas também Neurológico e Psicopatológico.

O perfil Neuro Cognitivo do indivíduo tem várias dimensões e deve ser avaliado no seu todo com recurso a estes instrumentos computadorizados que avaliam com extrema precisão se existem défices, onde existem, ou por exemplo que tipo de “atenção” está mais comprometida. Temos pelo menos 5 circuitos de atenção, uns podem apresentar défice, mas outros podem estar intactos.

Infelizmente muitos dos diagnósticos que são feitos a “olhometro” pelo clínico, seja através dos relatos dos pais ou através de questionários ou testes de papel atualmente pouco apelativos e práticos, podem dar resultados enviesados e dar falsos positivos.

O que acontece quando a avaliação não é a ideal, é que não se consegue estabelecer uma ação terapêutica eficaz. No desespero, alguns jovens e crianças recorrem a medicação, que tem simplesmente uma ação calmante ou dopante, como alguns pais referem, que muitas vezes trazem mais problemas do que realmente resolvem.

Apesar de saberemos que o indivíduo com TDAH tem menos recetores de dopamina nos centros de recompensa do nosso cérebro, i.e., aborrece-se com mais facilidade, essa característica também existe em certos perfis de personalidade, e trata-se recorrendo à neuro plasticidade do nosso cérebro através da modelação do comportamento e estimulação cognitiva destas regiões do cérebro.

Por isso uma avaliação eficaz, é fundamental nas crianças, jovens e adultos, porque é através dela que verificamos se de facto se trata de um TDAH ou não, que tipo de  plano de estimulação cognitiva ou Neuro-Bio-feedback se vai estabelecer, quais as regiões do cérebro a estimular, comportamentos a modelar e definir as técnicas e estratégias para utilizar no local de trabalho ou em sala de aula.

A verdade é que o sistema de ensino atual potencia a discriminação devido a ser maioritariamente quantitativo e pouco adaptado à realidade dos tempos de hoje.

No geral, as crianças e jovens têm, atualmente, “velocidades” e estilos de vida completamente diferentes, recebem estímulos e feedbacks de várias origens a toda a hora e precisam que a informação chegue rapidamente e num formato que seja percetível e estimulante.

 

O sistema atual, académico ou empresarial, coloca pessoas em salas cheias, com horários intermináveis e pesados e fomenta desde muito cedo, não a auto evolução e competição interna, mas a competição com o outro e a evolução baseada na comparação.

Nós sabemos que com este método, não vamos ver as melhores versões dos indivíduos com TDAH, nem dos ditos “normais”. Seja num cenário académico, empresarial ou com atletas de alta competição, o sistema de comparação com o outro limita, na verdade, a performance e evolução pessoal.

Se isto já é difícil para os ditos “normais” imagine-se para estes “exploradores” do Mundo, que facilmente se distraem e que facilmente procrastinam.

Facilmente estas crianças e jovens frustram e desesperam os seus pais ou cuidadores, e podem assumir com facilidade comportamentos antissociais ou em alguns casos, desenvolvem quadros de ansiedade ou depressão.

No Reino Unido, os jovens com estas características são integrados no todo, através de um modelo neuro integrativo e não excluídas em grupos especiais, que só contribuem para a sua estigmatização e para o não aproveitamento das neuro características destas crianças e jovens.

 

Procure ajuda clínica, faça uma avaliação competente e completa, inicie o seu processo clínico com alguém que esteja empenhado em alavancar as suas capacidades e a ajudá-lo com estratégias para viver a sua neuro diversidade num mundo de “colonos” mas onde os “exploradores” têm um lugar.

 

Nota sobre o autor

Dr. Alexandre Machado, 

-British Psychological Society-Chartered Psychologist 

– International Neuropsychological Society- Full Member  

-Neuropsychology Division Member-DoN British Psychological Society-European Certificated Psychologist – EuroPsy

-Ordem dos Psicólogos Portugueses- Membro efetivo 

-Mestre em Neuropsicologia pela Universidade Católica de Portuguesa 

-Doutorando em Ciências da Cognição e Linguagem pela Universidade  Católica  Portuguesa 
-Especialista condecorado em Operações Psicológicas Militares – Avaliação e Previsão de Comportamentos, Mediação de Conflitos.

-Instrutor convidado Especialista em Combate Corpo a Corpo -USA Army / DAE- Destacamento Acções Especiais Fuzileiros 

-Competidor e Professor de Jiu Jitsu Consagrado, 30 x Medalhado em Campeonatos Mundiais, Europeus e Opens Internacionais.

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