Amanhã vamos nós

É Domingo.

Estou em casa, ou melhor estamos em casa.

Eu e o meu marido.

Enfermeira e Médico.

As miúdas estão nos outros pais (dos nossos primeiros casamentos existem três meninas). Vêmo-las através dos faces times enviando beijos virtuais.

Amanhã regressamos ao trabalho num Hospital Central do Norte.

O meu marido trabalha nos Cuidados Intensivos, como ele diz, na linha da frente.

Eu trabalho num Bloco Operatório, que devido ao Covid – 19, está inop. (como trabalhei muitos anos em Cuidados Intensivos a probabilidade de ser mobilizada para a linha da frente é grande). Amanhã veremos.

Estamos nervosos.

Andamos nervosos.

A televisão está ligada 18 horas por dia com as notícias em canais nacionais e internacionais.

Lemos artigos científicos sobre a Covid – 19, por forma, a atuarmos no terreno da melhor forma possível.

Os familiares ligam-nos a precisar de respostas que não sabemos dar.

Os colegas inundam – nos o ecrã dos telemóveis com as últimas estatísticas dos infetados, com o número de ventiladores disponíveis, com conjeturas do presente e do futuro, com desabafos que só nós percebemos.

Tenho amigos meus que vão trabalhar e ficam a dormir no carro com receio de levar para casa o SARS Cov 2. Outros abasteceram as garagens das suas casas com comida e cobertores e ficam por lá, à espera do próximo turno.

Não abraçam os filhos.

Não beijam o marido ou a esposa.

Não vão a casa dos pais almoçar ao Domingo, como faziam há uma semana atrás.

Não podem sentir o pontapé do sobrinho que vai nascer daqui a poucas semanas.

Amanhã vamos nós.

Rezo para que alguém me ilumine. Me coloque uma manta protetora que impeça o contágio (como nos filmes dos Super Heróis).

Vamos.

Vou.

Com medo. De ficar infetada e infetar os meus.

Ansiosa. Por cuidar daquele que precisa das minhas mãos.

Preocupada. Com o tempo que isto vá durar.

Triste. Pela distância que me impede de lhes sussurrar ao ouvido que as amo.

Com pavor. Que ninguém sucumba perante o meu olhar.

Com esperança.

Que o coração aqueça com a alegria de enviar para casa o meu doente curado e poder dizer-lhe que o pior já passou.

Que em breve poderá abraçar os filhos.

Quem em breve poderá beijar a esposa.

Que em breve poderá ir almoçar a casa dos pais, ao Domingo.

Que em breve poderá sentir o pontapé do sobrinho na barriga da sua irmã.

Nota sobre a autora

Chamo-me Joana. Tenho 40 anos e sou muitas coisas… filha, irmã, enfermeira, formadora… mas a mais difícil de todas… sou Mãe, Boadrasta e mulher.

Escrevo para libertar o que me vai cá dentro.

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4 comentários em “Amanhã vamos nós

  1. É um orgulho conhecer vos!! Profissionais de corpo e alma!
    Estão nas nossas orações diárias! Deus vai estar convosco, para que esteja em todos nós! Força amigos! Um bem haja a estes super- heróis!
    Um grande beijo para os dois com carinho!

  2. Querida Joana…angustia é o que sinto. Parece muito leviano dizer…tudo vai correr bem…mas espero e tenho confiança que sim. Um beijinho ENORME ao teu profissionalismo e coragem que tens..

    F.Sena

  3. Tenho muito gosto de ser Colega de trabalho e Amiga deste ser admirável! Continua a desabafar pelos teus textos, faz te bem a ti e a nós! Estou contigo e com todos os que dão a cara, o corpo e tudo para ganharmos esta guerra. Beijo virtual cheio de sentimento!

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