Uma viagem ao Chile

À conquista do vulcão Lascar

Em 2017 visitei San Pedro de Atacama, no Chile. Há muito que me falavam do deserto de sal e, o ano passado, lá me organizei para chegar ao norte chileno. Mal cheguei, deixei a mochila no hostel e saí à rua à caça de coisas para fazer.

Mas rapidamente o meu entusiasmo se foi pelos ares… Os preços astronómicos das visitas guiadas puseram de lado os meus planos de fazer 1001 coisas na região. Enfim!

Meia amuada, lá me mentalizei que em 5 dias não poderia fazer mais do que 2 visitas. Entreguei a bicicleta que tinha alugado e segui caminho a pé. Entrei numa loja de bijutaria pela montra bonitinha que tinham e por ali estive a admirar as peças de cobre. De repente, percebi que aquilo era mais do que uma simples loja. Ouvi-os falar de neve, vulcões e caminhadas… Na época, pouco ou nada sabia do tema e lá me incrustei na conversa para que me explicassem do que falavam.

Disseram-me que apesar da neve no vulcão Lascar, estavam a organizar uma expedição para a subida deste no dia seguinte. Cerca de 100€ por pessoa.

Mas porque raio as pessoas haveriam de pagar tanto dinheiro para subirem a um monte… Pagar para cansar-se… Há gente louca!, pensei.

Mas aquilo intrigou-me tanto que pedi ao rapaz que me mostrasse fotos do tal vulcão. As fotos calaram-me a boca e, num ápice, a única coisa que me passou pela cabeça foi que também eu queria ser doida e fazer algo que nunca tinha feito (subir um vulcão).

Não tinha preparação física, não tinha roupa e o meu orçamento para o Chile já era. No entanto, não havia como acalmar a adrenalina que corria nas minhas veias de fazer algo tão diferente. Virei costas, levantei mais dinheiro e disse ao guia: Não tenho roupa, nunca fiz isto na vida mas não hei-de morrer. Amanhã podem passar no meu hostel às 04h da manhã.

Dito e feito!

Naquela noite não dormi de tanto stress. Vesti-me com 5 camadas de roupa na tentativa de sentir que estava preparada para a neve (tentativa falhada, obviamente) e esperei pelo transfere.

O jipe chegou à hora combinada e nele vinham 2 irmãos, um menino e uma menina com experiência em montanha. Vinham completamente equipados e, em vez de me sentir mais calma, ainda me enervei mais com o assunto.

O vulcão Lascar tem cerca de 5600 metros de altura, faz parte da cordilheira dos Andes e localiza-se na zona norte do país.

Quando chegámos, tomámos o pequeno-almoço e um dos guias lá me deu um casaco extra, umas calças impermeáveis, 2 pares de luvas, 1 gorro, 1 capacete e os bastões de caminhada.

Os 2 guias explicaram-nos como a subida se processava e 5 minutos depois já estávamos em fila indiana: 1 guia à frente, a menina atrás, eu, o irmão e outro guia para “fechar o grupo”. Eram umas 7h da manhã quando começámos!

Foi uma luta constante contra o frio, o desespero e o cansaço físico. Acho que perdi a conta às vezes que caí e as lágrimas que me caíram pelo frio que passei. Parámos várias vezes para comer e descansar e, quando achei que estávamos no ponto mais alto do vulcão e que tudo estava para terminar, um dos guias disse: A subida oficial do vulcão é até aqui mas a cratera fica a cerca de 100 metros. Vamos até lá?

Eu, sinceramente, já só queria um banho de água quente mas pensei: Mais 100 menos 100, vamos a isso. Mal eu sabia o que me esperava!

Nunca na minha vida 100 metros foram tão duros de fazer e nunca na minha vida 1 hora passou tão devagar (a elevação dos últimos 100 metros é qualquer coisa de outro mundo).

Senti, pela primeira vez, o vento a controlar o meu corpo, os meus pés a escorregarem pela montanha e as minhas mãos geladas como jamais as tinha sentido. Pensei em voltar para trás, pensei em não conseguir e odiei-me por me ter metido naquilo. Fui a última do grupo a chegar e, quando finalmente cheguei, o meu corpo quase não aguentou tanta emoção.

Larguei-me no chão a chorar!

Ainda hoje não consigo explicar o misto de emoções que senti naquele momento: Felicidade, Orgulho, Dor, Sofrimento… As lágrimas enchiam-me o rosto e os sorrisos à minha volta, o coração. Abracei os meus colegas como se da minha família se tratasse porque eu própria não podia acreditar no feito que acabava de terminar.

Naquele dia senti que tinha tocado o céu, senti que as nuvens estavam ali pertinho da minha cabeça e que uma nova paixão nascia dentro de mim, o meu amor pela montanha.

Subir o vulcão Lascar aos 25 anos foi o maior teste físico que algum dia podia ter imaginado fazer. E tu, já testaste os teus limites este ano?

 

 

Nota sobre a autora

Daniela Matinho, 26 anos e portuguesinha de gema.

O mundo virou-me as voltas e aos 19 anos deixei Portugal para me tornar uma filha do mundo. Formada em Comunicação e Marketing Digital, estudei em Portugal e França. Fiz voluntariado no Brasil e vivi um ano na Austrália.

Em 2016, revolvi montar o meu escritório ambulante e assim, deixei de trabalhar para as minhas viagens e passei a viajar para o meu trabalho.

Para saber mais das minhas peripécias e aventuras de viagem:

www.danielamatinho.com

Instagram: @danielamatinho

Facebook: Grupo Garotas pelo mundo

Contacto: contact@danielamatinho.com

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