Ter férias das férias

Aquela história de que só temos 18 verões com os nossos filhos é para nos lembrar que qualquer dia não querem estar connosco, mas hoje, quem acaba de chegar de férias com filhos pequenos não pode condenar quem diz que precisamos de férias das férias com eles.

Tudo começa ainda não fomos de férias, quando se aproxima a data e já começamos a poupar as roupas mais novas e mais giras para os exibirmos fora de casa. Isto quando eles ainda vestem absolutamente apenas aquilo que nós queremos. Por isso, é provável que a uma semana de irmos de férias eles andem com padrões que não condizem ou com calções mais apertados, porque a roupa boa tá guardada para as férias. 

Escusado será falar da logística da preparação das malas… que no verão, pensa o comum dos mortais, é mais fácil porque é menos roupa… Quando na verdade o verão implica: praia ou piscina e, isso, implica duas mudas de roupa por dia: a da praia e a do jantar caso nos aventuremos a sair para jantar. 

E a juntar à roupa vêm as coisas de higiene, com os cremes todos e solares e os medicamentos para todas as hipóteses de doenças que eles possam apanhar nas férias, porque as mães são feitas para prever essas coisas. 

Em penúltimo da lista estão as comidas preferidas, aquelas que achamos que lá para onde vamos, não vamos encontrar: as frutinhas biológicas, ou as bolachas de arroz com que ainda os enganamos a acharem que são batatas fritas, etc, etc.

E claro os brinquedos, que vão desde o boneco com que dormem, aos da praia com que eles nunca brincam mas que espalhamos pela areia, numa tentativa de que outras famílias se aproximem ainda mais dos nossos chapéus. E, claro, aqueles que eles adoram e que nós ingenuamente esperamos que os possam entreter horas a fio enquanto estamos descansados a ver programas de televisão inúteis ou a recuperar a leitura que não conseguimos pôr em dia.

Mas as férias de quem tem filhos pequenos, são um trabalho a tempo inteiro que exige um rigor ainda mais absoluto que dias na escola, porque só com rigor podemos aproveitar as férias, e para sermos rigorosos basicamente passamos os dias a pensar em ser rigorosos e nunca descansamos: é acordar cedo e despachar tudo cedo para estarmos na praia a horas que o sol não faça mal aos miúdos, é vir a correr para eles almoçarem e para os que dormem a sesta dormirem, para os conseguirmos aturar de bom humor à tarde, é quando acordam da sesta pôr tudo a mexer para termos tempo de ir à praia ou à piscina à tarde, sem virmos muito tarde tomar banho e jantar, para eles não se deitarem às tantas, para no dia a seguir não acordarem às tantas e começar tudo de novo outra vez. 

Já para não falar do que é estar na praia, entre o quero ir à agua, até quero comer, passando pelo tenho sede, fiz cocó, quero fazer castelos, dá-me a toalha que tenho frio… um minuto que seja de olhos fechados com o sol a bater-nos na cara, ou um mergulho apenas sem termos um pendurado à cintura parecem-nos uma semana nas Maldivas. 

Já para não falar de ouvirmos “mãe” meio milhão de vezes por dia, ou de termos sonhado com o que íamos fazer nas sestas deles, mas os planos saírem muitas vezes furados, ou com o privilégio que é termos uma refeição por dia em que só nos levantamos 5 vezes, ou com todos os restaurantes em que sonhámos ir, mas que acabamos por quase não comer porque estamos a dar a comida a um ou a tentar calar a birra do outro.

No fim voltamos a casa, tão cansados quanto felizes: o mais novo já faz uma gracinha nova, continua a acordar uma data de vezes para comer, mas continua um bonzinho do melhor, e a mais velha já se atira para a piscina de braçadeiras, dorme a noite inteira e aprendeu quase um dicionário inteiro de palavras…

No carro de regresso a casa com as saudades todas de não termos que andar a fazer tetris com as nossas roupas e as coisas dos miúdos em casas e quartos  que não são os nossos, fazemos as contas a quantos verões nos faltam ainda com cada um deles e repetimos o chavão de que isto passa a correr, dizem. 

E dizemos para nós: é só esperar que eles durmam a viagem inteira, arrumar isto tudo, pôr as máquinas de roupa a lavar, estender, passar, fazer umas compras que em casa não há nada, deixá-los na escola e chorarmos por dentro porque eles ficam tristes com a mãozinha a dizer-nos adeus… porque queriam era estar connosco… e tentamos animar-nos, porque vamos estar a trabalhar e poderemos, finalmente, descansar.

O estranho nisto tudo é que no primeiro dia de regresso à normalidade já estamos a contar os dias que faltam para estarmos outra vez de férias, porque só queremos é estar com eles.

 

Nota sobre a autora

Rita Dias Ferreira

40 anos 

Técnica de comunicação 

Escrevo desde que me lembro para os outros, porque faz tudo mais sentido quando é para os outros. E mais ainda quando os outros me dizem que podiam ter sido eles a escreverem o que eu escrevi. Só faz sentido escrever quando há quem nos queira ler. 

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1 comentário em “Ter férias das férias

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