Que Número És?

A palavra fidelizar é, por si só, um conjunto de números, ou não fosse ela composta por nove letras, quatro sílabas, quatro vogais e cinco consoantes. Terá pouca importância pensar-se em números quando se olha de uma forma simples para este verbo transitivo. No entanto, quando pomos em prática o seu significado (tornar cliente ou consumidor fiel a marca, produto ou serviço), preocupa-me a demasiada importância dada aos números. A pressão imposta a quem tem rapidamente de transformar trinta e dois em cento e cinquenta e oito ou setenta e cinco em um milhão, faz esquecer que o fulano vinte e dois sentado à nossa frente perdeu o sorriso que tinha quando o atendemos uns dias antes e quando ainda era apenas o vinte e um. De pouco ou nada importa o seu rosto de infelicidade ou um semblante carregado de consequência de um problema pessoal grave e recente, se afinal o fulano até conseguiu engrossar a vasta lista de fidelizados e aumentar o resultado líquido da fidelização. Mais, provavelmente um resultado em que o número equivalente à preocupação pelo estado emocional do fidelizado é zero, à esquerda.

A meu ver, a sobrevalorização do termo fidelizar chegou a um ponto em que quase tudo é um número, fazendo parecer que respiramos e sentimos números. As estratégias empresariais de fidelização estão espalhadas em todas as outras áreas da sociedade, incluindo as aspirações e objetivos individuais, vocações, sentidos e até mesmo na ganância de nos transformarmos num número cada vez maior.

Fui algumas vezes o número treze, na escola. Na tropa fui o oitenta e seis. Ontem, no hipermercado, fui o sete na fila da charcutaria.

Além de um número, também me chamo Zé. Rio e choro, fico triste e contente, não sei cantar, mas gosto de música. Ultimamente, tenho acordado sem me doer nada, mas não me consigo lembrar da última vez que nevou na minha terra. Também me emociono, por isto ou por aquilo, quase todos os dias.

E tu, que estás a ler isto, que número és?

Nota sobre o autor:

José Rodrigues. De Viseu, com 49 anos, é Autor dos romances “O tempo nos teus olhos”, “Voltar a Ti” e “O rio de Esmeralda”.

Com formação superior na Área da Gestão e carreira como consultor e formador. Sócio fundador da Visar, onde desenvolve toda a sua actividade profissional. A família e os amigos, o karaté, a natação e o futebol veterano complementam o enorme gosto pela escrita.

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