Para os pais de colo sem fundo

Não há mimo a mais.

Mal os filhos nascem, colamo-los à pele ainda escorregadios, molhados. As temperaturas dos corpos reconhecem-se e equalizam-nos. Ao contrário do que nos romantizaram, não nos cai imediatamente um raio na cabeça de amor pelas crias, mas é ali, naquele primeiro embate de peles e temperaturas, serenados em nós, mornos e tenros, que se assina a promessa de colo sem fim e sem fundo para sempre. E o amor vai crescendo cada dia que passa, sempre mais. E os filhos crescem com o colo dos pais a expandir com eles (e há sempre espaço para se aninharem, tenham 2, 16 ou 30 anos ou 50 anos.)

Não há mimo a mais. Nós somos os pais que não deixam os filhos a chorar no berço como tantas vozes nos aconselharam. Pareceu-nos sempre uma cobardia desigual deixá-los a chorar até adormecerem. Que sentido faz esse braço-de-ferro? O que lhes ensinamos? “ Olha, não estou para te aturar e vais calar-te porque quem manda aqui sou eu’”? Ou “ Estou a ignorar o teu choro para que te habitues a que na vida te ignorem os sofrimentos e por isso, esquece lá essa chamada de atenção, rende -te à exaustão do choro, conforma-te com a frieza dos outros e adormece nesse soluço”?

Para os pais de colo sem fundo, impensável.

Pegamos-lhes sempre que o choro se arrasta, encostados a nós até a acalmia chegar. Fazemos kms nos corredores das nossas casas em madrugadas de cólicas,  entoando-lhes ao ouvido as canções das nossas  infâncias, nós, pais Spotify Premium, dormentes de sono a dançar no soalho, sonâmbulos de amor.

E sabem que mais ? Os nossos filhos dormiram e ainda dormem muitas vezes na nossa cama. “Pecado Capital – dizem-nos.  “Estamo-nos a borrifar para isso”  – respondemos.. Deitamo-los ao nosso lado, afagamos -lhes os cabelos. Encostam-se ao nosso peito e de imediato adormecem apaziguados. Vão-se os medos, morrem os monstros, fogem todas as angústias. Cheiramos-lhes os pescocinhos transpirados e também nós nos confortamos de os  saber ali tão perto na certeza serena que o mundo fora dali é deles e que o vão conquistar, seguros e felizes, um dia mais tarde. A vida passa depressa demais e os pais do colo sem fundo sabem-no tão bem.

Se também nos passamos? Claro que sim. Somos pais de colo sem fundo, mas não somos totós. Acreditamos que a autoridade e o carinho andam sempre de mãos dadas e que a educação se faz pelo exemplo de firmeza e amor. Colo, diálogo, firmeza, beijos, respeito pelos seres pequeninos que também nos educam porque a estrada da educação e do amor tem dois sentidos sempre.

Por isso, deixem-nos em paz, por favor. Nas nossas casas, somos felizes e é assim que queremos e sabemos viver. Somos pais orgulhosos do colo sem fundo e afirmamos que não há mimo a mais: há é gente a mais a crescer sem mimo e em colos demasiado estreitos e duros.

Deixem os nossos colos sem fundo em paz porque acreditem: através deles mudaremos o mundo.

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