Minha neta querida, querida

31 de Dezembro de 1999,

Num momento academicamente virtual, em que é “politicamente correcto-educacional” dizer-se que a juventude foge da Matemática à velocidade de um foguetão à procura de falhados diálogos com o planeta Marte, tu, num dos muitos em que paras um poucochinho, para balanço da tua vida – balanços onde sempre cabem os afectos que tão desveladamente me diriges –, tomaste consciência do significado duma humilde operação aritmética: os teus vinte e três anos, somados aos meus setenta e cinco, resultam em quase-quase cem anos de vivências distribuídas por avô e neta. O pequeníssimo intervalo de dois anos para consumação secular podemos aproveitá-lo para nos sentarmos na plateia do meu “cineminha” de bairro, já desaparecido com o “The End” duma fita do Bogart. Se tu quiseres, podes atirar-te a um cartucho de pipocas. Eu fecho os olhos e espero o retinir duma campainha, para tornar a ver a Bergman e chorar a ouvir a canção de Casablanca.

 

O teu desafio, apesar de meter deixado levemente atrapalhado, talvez vá conseguir a concretização duma atitude mental positiva. A inevitável consciência de que já se está velho provoca, em muitos casos de escrita, uma hibernação que só a chegada duma intemporal Primavera pode trazer novas forças ao olhar amortecido. Serás tu, Neta, essa Primavera?

 

Contudo, quero desde já confessar-te: o convite que me fazes tem alguns perigos. Vou apontar-te um deles. Enquanto irás usufruir a base fundamental do mundo de realidades e de sonhos que desejas abnegada e corajosamente conquistar para o teu Futuro, eu deslizarei forçosamente pelos declives das memórias, do que ainda resta guardado na minha arca das recordações. Não será que poderemos cair em disfarçadas chatezas de autobiografias? Sei que essa ligação e confronto entre Futuro e Passado, é isso mesmo o que desejas: pessoas, acontecimentos, vitórias e derrotas, o cofre sagrado dos sentimentos, os sabores das grandes e pequenas felicidades e amizades, a suprema alegria dos nascimentos, a indizível angustia das doenças e das mortes, as madrugadas e os crepúsculos do Amor. E o perfume misterioso dos segredos intuídos mas que nunca serão escritos porque são mesmo segredos.

 

É estranho que esta aventura de nos exprimirmos desta forma, pela escrita, possa acontecer no quase virar do século e do milénio, um quase com a duração ainda de trezentos e sessenta e cinco dias, conforme nos obrigam os números do calendário gregoriano. Não foi só o português das Descobertas que descobriu que o século vinte acaba hoje e que amanhã nasce o Terceiro Milénio. É o mundo inteiro que embalado nos papéis e laços coloridos, nos fogos-de-artifício e em ínvios caminhos das auto-estradas da informação, tudo ao serviço do Bezerro de Oiro do Consumismo, se deixou alegremente embrulhar. É um erro, mas talvez um erro abençoado porque vai pôr um planeta, tão martirizado, a sonhar antes do Tempo.

 

Com amargura, factos bastante recentes impedem-nos duma alegre despedida deste 1999. A fome das crianças de Angola, o sismo dos Açores, o Kosovo, a Grande Viagem da Amália, a monstruosa tentativa da total destruição de Timor e do seu Povo, o nostálgico adeus a Macau e a incomparável tragédia da Venezuela constituíram, no fecho da Revista do Ano, uma terrífica apoteose antes do cair do pano. Mas todos temos o direito de esperar a Esperança das Esperanças. E nós amamos a Vida e Amamos este Planeta, a Mulher, o Homem, a Natureza e este Universo, onde somos parte duma réstia de deslumbrada poeira.

 

Vamos entrar nesta Aventura, de mãos dadas, como sempre temos caminhado.

 

Neta, aceito o teu desafio!

 

E agora deixemos que o silêncio não esconda uma voz que te é muito querida e que jamais se calará. Escuta… Não ouves a Amália, clara e brincalhona a perguntar-nos: “Eu não dizia?!…”

 

A maior das ternuras do teu Avô

Eduardo

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