Esta é a minha luta: O dia em que o meu filho me pediu para não morrer

Aqueles dias que nos marcam, que nos ficam na memória, com a mesma clareza como se do próprio dia se tratasse. Já em pleno tratamento, radioterapia concluída e a aprender a lidar com os efeitos da quimioterapia. O cuidado antes de cada ciclo se iniciar de antecipar o que poderia acontecer. De uma forma simples e com a maior naturalidade, fomos explicando ao Tomás o que poderia acontecer nos dias seguintes. Queria afastar por completo a possibilidade de ele imaginar coisas, de pensar que eu estaria pior ou a esconder-lhe algo. Este nosso caminho tem sido traçado com transparência. Nada lhe é escondido. Mas é adaptada a linguagem e as explicações à capacidade daquilo que ele é capaz de compreender. E basta.

Queria muito que ele entendesse os momentos de menor disponibilidade para estar com ele, para brincar, para o acompanhar nas suas atividades. Queria que aceitasse que se devia aos efeitos dos tratamentos e jamais ao facto de eu, de minha livre vontade, não o querer. Ele acharia aquilo estranho. Sempre passamos muito tempo juntos. Temos o hábito de brincar, de partilhar vários momentos. Qualquer situação que viesse alterar essa realidade seria difícil de aceitar.

Sempre que falei com ele sobre este assunto, pontualmente e quando estritamente necessário, nunca o apelidei e ele felizmente nunca me perguntou como se chamava o tal “dói-dói”. Não me pareceu necessário. Se o perguntasse diretamente responderia mas nunca o fez. Para mim não é (nem nunca será) nenhum bicho papão falar de cancro. Ele tem a importância que lhe damos, como em muitas situações na nossa vida. A palavra em si não me assusta em nada, assusta-me sim o estrago que ele pode fazer na nossa vida. Aqui há tempos falava-se sobre cancro na televisão. Perguntou-me o que era. Tentei explicar. Pareceu-me perceber. Perguntou-me se as pessoas morriam por esse “dói-dói”, expliquei que algumas, como por diferentes outros motivos, mas que cada vez mais existiam remédios melhores que ajudavam a tratar. Perguntou-me se essas pessoas também ficavam, por vezes, cansadas, a vomitar e sem cabelo. Disse-lhe que algumas. Olhou-me sereno e disse-me que já tinha percebido. As crianças percebem tudo. Com ou sem definições, elas sabem.

Era perto das 00 horas. O telefone tocou. Telefonemas àquela hora raramente nos trazem boas notícias. Era o caso. A surpresa da morte de alguém próximo. O choque inicial e a típica expressão “Mas como é que é possível?”. Claro que era. Vivemos na ilusão que um dia essa realidade não nos vai bater à porta. Mas vai. A todos. Não há nada mais certo. E mesmo todos sabendo, andamos distraídos com a nossa vida, a fingir que não é possível. Fingimos porque queremos camuflar e abafar a dor que ela trás.

O Tomás apercebeu-se do que se passou. Fez algumas perguntas do que tinha acontecido e respondemos. Não acho que seja um assunto que se deva esconder das crianças, há que haver um equilíbrio, como em tudo. Não devem viver atormentados com essa ideia mas também não devem viver na ilusão dessa ausência. Ficou surpreso e custou-lhe a aceitar como era possível, tratando-se de uma pessoa relativamente jovem e saudável até ao momento. A conversa ficou por ali. Não sei que tipo de pensamento o acompanhou nessa noite ou que medos novos lhe nasceram que pediu para dormir comigo. Já deitados, expressou que esperava que nada semelhante acontecesse connosco. Disse-lhe para fechar os olhos e dormir e que estava tudo bem. Frequentemente digo-lhe para pensar em coisas boas quando não consegue adormecer e foi o que fiz. Já no silêncio da noite, certa de que ele dormia e oiço “Mãe, prometes que nunca me vais deixar?”. Senti-me a congelar. Completamente sem ar. Se havia pergunta que eu receava desde o início era esta. Simplesmente porque não sabia a resposta (como nenhum de nós) e não queria mentir. Acredito que a verdade é quase sempre a solução certa para a maioria dos problemas. Fiquei sem som durante uns segundos, a pensar no que dizer. Reacendi a luz e conversamos olhos nos olhos. Disse-lhe que ninguém pode prometer isso, nem a mãe nem ninguém, porque a vida era mesmo assim e que nos restava aproveitar, mimar e amar quem gostamos todos os dias. Falei-lhe dos avós e de como eles estavam sempre connosco porque viviam no nosso coração e na nossa memória. Isso nunca ninguém nos consegue tirar. Mas que faria sempre tudo para estar com ele. Sorriu-me e adormeceu. Escusado será dizer que foi uma noite em branco. Não voltamos mais a falar no assunto.

Durante estes anos tenho lido e estudado muito sobre o meu problema. Talvez demais. Fui percebendo que a evidência científica foi mudando. Da inicial abordagem do “esperar para ver”, cada vez mais se propunha intervir quanto antes porque a maioria dos gliomas tendiam, com os anos, a tornar-se mais agressivos. É quase consensual uma esperança média de vida entre os 5 a 12 anos. É inevitável que faças contas. Que vejas o que já passou e o que ainda está por vir. Sou uma pessoa da ciência, da evidência, dos factos. Sempre fui. Mas sou simultaneamente defensora do poder dos afetos e do amor e do que eles podem fazer por ti. Recuso-me a viver presa a isto. A viver condicionada. Vou viver e pronto. O máximo que puder. O melhor que souber. Há dias em que vivo nesta pura dualidade entre o desejo de nunca ter sabido até ao dia necessário intervir e os que desejaria saber quanto antes. Há dias em que me reconforta saber que isto me tem tornado numa pessoa melhor, mais atenta, mais sensível e mais serena. Há dias em que me gostaria de desprender da culpa que sinto por trazer esta dor e esta preocupação aos MEUS. Há dias bons e há dias maus. Mas em todos há amor e há esperança. Há a força do acreditar que a ciência não tem sempre razão. 

Há cerca de dois anos faleceu uma familiar próxima exatamente com o mesmo diagnóstico que eu. Existe este peso da história familiar. Foi-me dito que, cientificamente, para o caso, é pouco relevante. Sabe-se pouco sobre isso ainda. Este ano faleceu subitamente o médico que me fez o diagnóstico. E com certeza várias outras pessoas que podem nunca ter chegado a interrogar-se sobre a possibilidade da sua própria morte. E eu continuo aqui. Trazer comigo esta bomba relógio e sentir-me em contra relógio com o tempo faz-me viver com outro olhar, com outra perspectiva e tem-me obrigado a traçar novos objetivos. Nem tudo é mau. Há muitos ganhos em todo este percurso. Claro que preferia não ter que passar por isto. Parece-me óbvio. Mas a ter que o fazer, que seja esta aprendizagem inigualável.

 

 

(continua)

Irina.

 

 

 

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4 comentários em “Esta é a minha luta: O dia em que o meu filho me pediu para não morrer

  1. Fazemos o que tivermos de fazer. E vamos buscar uma força que desconhecemos, por outro lado tentamos acalmar a alma e de manhã, quando acordamos, pensamos, mais um dia para criar memórias. Irina desejo para ti o mesmo que para mim, saúde.

  2. Para quem por algum motivo teve ou tem contato com a família/clã, nunca poderá ficar indiferente a esta relação de mãe para filho perante as intropias da vida, mas sempre a verdade, com amor, companheirismo e acima de tudo para quem está de fora é a presença de uma admiração duns pelos outros.
    A perspicácia e astúcia do pequeno já lhe é conhecida, com o passar dos anos deve estar mais apurada. Beijinhos felicidades e já agora uma profunda admiração.
    Cátia Simões

  3. Oh tão profundo o que escreveste! Sim, o que estás a viver com tanto sofrimento para os TEUS e todos que te conhecem é uma APRENDIZAGEM INIGUALÁVEL.
    Eu acredito que tu és um Ser de luz, não é por acaso que estás a viver isso, depois tudo vai ser muito mais perfeito…. para Ti e todos que privam contigo! Abraço.

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