Diário de uma Enfermeira quarentona em tempos de pandemia: Parte IX

13 de Maio.
Se não fosse este vírus que nos tira tudo aquilo que nos liberta, teria chegado ontem a Fátima (teria feito a minha peregrinação, que faço todos os anos desde 2016, com os meus amigos peregrinos). Teria tido as dores no corpo do costume. Teria tido aqueles momentos de companheirismo que fazem com que essas dores sejam esquecidas e passem a ser risos de alegria. Teria tido os meus momentos de oração e introspeção. Teria entrado no santuário de mãos dadas com eles. Teria ido e teria chegado. Hoje a casa.

13 de Maio.
Teria chegado a casa ontem. Já tarde, pois viria de Fátima, depois de ter estado na procissão das velas. Teria tomado um banho quente e ter-me-ia deitado pois iria acordar cedo para viver um dos dias mais felizes da minha vida. Se não fosse este vírus que nos tira tudo aquilo que nos liberta, teria assistido ao nascimento do meu sobrinho.

Sim, hoje fui tia. Pela primeira vez, verdadeiramente tia. Não fui tia por “afinidade”, como já sou de quatro sobrinhos. Nasceu o filho da minha única irmã. Nasceu o meu sobrinho e eu sou mais uma “coisa” – Sou tia e sou madrinha.

Teria afagado o cabelo da minha irmã e teria-lhe sussurrado ao ouvido” vai correr tudo bem”, a caminho da sala de partos.
Teria assistido à cesariana e teria chorado mal ouvisse o choro do meu menino. Teria chorado com a minha irmã. Teria chorado com o meu cunhado. Teria chorado ao pegar nele. Teria chorado quando me apercebesse que é tão parecido com o pai…

Mas não.
Este vírus Tirou-me isto tudo. Tirou-me este sonho de o ver nascer. Tirou-me este choro entre irmãs que nos iria marcar para sempre. Estive longe, distante. Não lhe dei a mão. Vi a foto do meu primeiro sobrinho, aquando do seu nascimento, através do WhatsApp da anestesista.

Que liberdade esta que nos impede de viver momentos únicos? Que liberdade esta que nos proíbe de viver momentos que nos pertencem, que são nossos, tão nossos e só nossos? Que liberdade esta que não me deixa ser livre? Verdadeiramente livre?

Hoje passei a ser uma tia enfermeira quarentona em tempos de pandemia que anseia pela hora de puder pegar no Gustavo e encostá-lo junto ao meu coração e dizer-lhe baixinho: “bem-vindo a este mundo louco, meu querido sobrinho, meu querido afilhado! Estarei aqui sempre para te proteger”!

Nota sobre a autora

Chamo-me Joana. Tenho 40 anos e sou muitas coisas… filha, irmã, enfermeira, formadora…mas a mais difícil de todas… sou Mãe, Boadrasta e Mulher. Escrevo para libertar o que me vai cá dentro…

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4 comentários em “Diário de uma Enfermeira quarentona em tempos de pandemia: Parte IX

  1. Amei ❤️Mais um texto emocionante ,👏👏👏
    Onde descreves perfeitamente o teu sentimento …
    Sempre que te leio é uma emoção mas neste não consegui reter a lágrima ,a tua escrita é maravilhosa Joaninha …😘❤️🙏🤗💝

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