Corrida Matinal e Teorias da Respiração

Fui correr pela manhã com a energia de uma pilha descarregada, daquelas que já só geram potência suficiente para uma mera luz de presença, bem fraquinha e subtil na sua tentativa de fazer a diferença na luminosidade.

A minha energia é muito variável, uns dias corro com a vitalidade de uma criança de dez anos, noutros dias com o carregar de um idoso de oitenta anos. Incrível é observar a genica dos outros à minha volta e aperceber-me que por mais que eu dê tudo de mim, fico sempre para trás, sempre aquém. Também, não é difícil ultrapassar o meu andamento, corro, ou melhor, tento correr a passo de caracol na esperança de acalentar mais uns passinhos de bebé até à meta. Enquanto isso, observo os meus personal trainers involuntários a levitar ao meu redor com todo o vigor e fulgor de atletas robustos (e não, eu não vou correr para a Federação Portuguesa de Atletismo)!

Tenho simplesmente a resistência de um motor dos anos vinte ou de um fole de lareiras da avó, daqueles que sugam todo o ar que cabe lá dentro e num ápice tudo desaparece. Sou tal e qual, dou tudo nos primeiros metros, depois, assim que o fole se esvazia, rezo para que o tumulto acabe, ergo os braços a brandir de sufoco e cansaço até à reta final.

Pois bem, hoje falo de corridas, não tivesse já eu relatado toda a minha angústia associada a este sofrimento puramente causado pelo meu sedentarismo já encrustado neste corpo. Mas enfim.
A vida é de facto um desafio, além destas corridas matinais essenciais à lucidez física de qualquer ser humano, temos também as corridas mentais e estas não terminam nunca, são maratonas constantes, apneias incessantes.

Ao contrário das corridas físicas, as corridas mentais não têm meta definida. Ou têm. Ou então vão tendo. Em suma, tudo depende do seu corredor e por isso decidi classificá-los.

Os corredores lentos, são aqueles que não andam nem deixam andar, são aqueles que vão pela rua sem pressa e também não se deixam ultrapassar. Os lentos estão sempre bem, estão no seu cantinho acomodados porque o que já têm é suficiente e sentem-se bem assim. Não querem investir em dietas e muito menos desgastar-se em ritmos alucinogénicos. São também conhecidos pelo típico “vai-se andando” e não há mal nenhum nisso.

Os velocípedes são os verdadeiros atletas, não olham a meios para chegar às metas. Estes corredores têm uma cegueira total pelo que gira à volta deles mesmos, apenas se preocupam em chegar ao fim e, sobretudo, vitoriosos. Vão trepando barreiras com a mesma arte de um trapezista, porém, sempre prevenidos com a rede por baixo, amparando eventuais quedas. Cortam nos hidratos, e, tem uma dieta tão rígida que está longe de alguma vez ser beliscada pela tentação dos temidos açúcares.

No seguimento desta teoria, temos o terceiro e último corredor, o indivíduo do pára-arranca. O pára-arranca está sempre em ponto de embraiagem, mesmo quando o motor está quase quase a ir abaixo, ele dá-lhe sempre aquele jeitinho. Precisa de pausas, porque nem tudo pode ser feito de uma só vez e porque ̈Roma e Pavia não se fizeram num só dia. Tem um pé num lado e outro noutro, anda manco, mas seguro, já que tem os dois pés no chão, ainda que em sítios diferentes. Não tem medo de arriscar, põe as cartas todas na mesa, é, por isso, calculista e simultaneamente muito sonhador. O pára-arranca é perfeccionista, é de estratégia contorcionista e muito pouco ilusionista. Talvez por isso a demora induzida em tudo o que faz, até porque, é em tudo o que faz que vai deixando um pouco de si mesmo.

Na corrida é tão fácil inspirar o ar que nos rodeia, encher o peito com uma boa lufada de oxigénio e apreciar o cheiro da manhã de outono conjuntamente. Difícil será inspirar aquilo que nos completa, lotar o coração do que nos acrescenta e rechear o peito do que nos multiplica.

É tão fácil expirar o ar que nos invade e expande os pulmões. Difícil é expirar o que nos sufoca, o que nos prende, o que nos amarra, o que nos torna lentos, velocípedes ou pára-arranca.
Independentemente da categoria onde nos encaixarmos, independentemente da peça que nos servir, de onde viermos e do que pensamos, o melhor mesmo é que não falte nunca a vontade de viver, a força para continuar e a felicidade de respirar.

E pensar que podemos ser tanto e ao mesmo tempo, só não podemos respirar tanto, nem ao mesmo tempo.

Márcia Carvalho

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