A saudade não tem solução

A saudade pode vestir-se de todas as formas, chegar de todas as maneiras e fazer com que todos os sentidos se apurem, quando menos se espera. O corpo, quando sente que a saudade chega, pode fazer com que as pernas fraquejem e os braços se despeguem do tronco, enquanto os poros parecem tomados por uma rajada de vento, ainda que apenas uma brisa sopre. Os ouvidos conseguem escutar cada som de todas as palavras bonitas que foram ditas, num tempo que parece distante e sente-se a boca secar, como se de sede se tratasse…

Os três amigos, já maiores de idade, eram órfãos de pai desde o início da adolescência. Sem darem conta de a noite passar, a lareira do bar e as cervejas repetidas juntaram-se à saudade súbita que sentiram de quem haviam perdido, quando ainda apenas sonhavam ser homens. E, quando a emoção que a perda traz se mistura com as palavras, a conversa pode entristecer e alongar até chegar a madrugada, como se a cada pergunta feita se esperasse uma resposta de conforto e ajudasse, ao mesmo tempo, a acalmar a enorme tempestade que se via pela janela envidraçada. As horas passaram e a solução para fazer desaparecer a saudade não foi encontrada, nem naquela noite, nem em outras que se seguiram em outros lugares. Muitos anos depois, continua a não existir solução e talvez nunca seja encontrada forma de preencher esse vazio que ocupa parte do coração. No entanto, momentos como os daquela noite, libertam sementes que ajudam a plantar raízes sólidas cujas plantas crescem de forma esplêndida dentro de um campo que existe no peito de cada um, transformando a terra seca num espaço verde e fértil. Menos seco, muito menos triste. Talvez a contínua beleza e fertilidade desse espaço sejam proporcionais à quantidade de vezes em que se repetem momentos como os daquela noite.

Porém, só a amizade possui a grandeza de os fazer acontecer…

José Rodrigues.

 

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