A minha nota

Desde que nascemos que inventaram uma forma qualquer de nos compararem com o resto das pessoas. Como se a minha forma fosse única, mas não o suficientemente boa para ser aceite como tal, então alguém estabeleceu paralelos comparativos entre o que eu sou e o que os outros são, para demonstrar por A mais B, aquilo em que os outros são melhores que eu e vice-versa.

Na escola foi assim, e eu achei vezes sem conta que era grande de mais, pequena de mais, que não sabia o que era suposto, que chegava mais tarde do que se esperava, que desejava mais coisas do que o suposto, que afinal devia ter feito melhor, ou pior, para não acharem que eu achava que era maior, melhor…um mundo inteiro de contrariedades em que eu e os outros éramos avaliados de forma igual, e alguns eram melhores e outros piores.

Crescemos nesta injusta medida de querer que na comparação com os outros nos achem bons, acima da média, de querer ter boa nota, a melhor, a que chegue para passarmos, para enchermos os nossos pais de orgulho, pela nossa inteligência, ou antes pela nossa capacidade de reposta às exigências escolares, pela nossa agilidade e destreza física de conseguirmos saltar daquela altura, correr daquela maneira.

Crescemos a querer não só ser bons, mas sobretudo ser melhores do que os outros, porque só assim conseguimos ter a média certa para entrar no curso que escolhemos, ou a sorte mais certa de que ele, mesmo com toda a atenção das outras, vai querer olhar só para nós.

E assim chegamos à vida de adulto a achar que alguma coisa vai mudar, mas não muda. Que há-de haver um fim para o teste que iniciamos mal nascemos. Mas não, continuamos em avaliação contínua, do que somos, do que parecemos e sobretudo do que queremos que os outros pensem de nós. E naquele trabalho que conseguimos porque no fundo talvez tenhamos sido melhores que os outros, continuam as dúvidas se estamos à altura.

E nas relações que começam e acabam, nos abraços que fazemos e desfazemos, nos filhos que temos, nas noites em que não dormimos, nos erros que cometemos, nas vitórias que celebramos paira sempre a dúvida sobre será que o que somos é suficiente? E será que é o suficiente para sermos melhor do que a maioria?

Seja como for, a meio da nossa vida, com carreiras de décadas, com os filhos a correrem à nossa frente, com a correria de ter trabalho para fazer e querer ter uma vida para viver, com a certeza de que fazemos o que conseguimos, mas podíamos ter feito melhor, gostava imenso de saber no fundo qual é a minha nota.

Gostava de dizer que a maturidade da idade nos leva a auto-avaliações cada vez mais otimistas, como se tivéssemos absoluta consciência de que os com quem nos comparámos a vida toda deixaram de ser adversários, são companheiros nesta luta de queremos saber quanto valemos, mas ao envelhecer valermos cada vez mais, porque o absurdo vale cada vez menos.

Porque não há tempo, nem para más notas, nem para comparações injustas com outras pessoas que não são iguais a nós, nem levam nos braços o mesmo que nós. Claro que podia ser mais magra, mais organizada, mais metódica, mais objectiva, mais trabalhadora, mais atenta, mais generosa, mais ambiciosa, podia. Mas não sou. Podia ter melhor nota, passar com distinção, ganhar prémios e quadros de honra. Podia. Mas não ganho.

E se a minha nota é mediana, como o era desde que me lembro de estudar, abaixo da média em alguns casos, nada de isso me leva a pensar em que sou menos do que que aquilo que sou. Nada me leva a esquecer o orgulho nos olhos da minha mãe quando conseguia coisas que eram normais para a maioria.

Sou o que sou e gostava de ser melhor, gostava mesmo, tenho pena quando não sou, mas se houver alguém a dar-me uma avaliação final que tenha em consideração todas as boas refeições que já cozinhei, todas as doenças que já tratei, todos corações partidos que já colei, todo o profissionalismo com que já me dediquei.

Porque posso nunca ter a melhor nota, mas continuam a existir coisas que só eu sei. Porque apesar de nos quererem todos iguais, para a comparação ser mais fácil, somos todos tão diferentes e o que eu sei fazer, só eu sei fazer assim, da minha forma, do meu jeito. E com jeitinho mesmo se me derem negativa, vou continuar a achar que merecia sempre melhor nota.

 

Nota sobre a autora

Rita Dias Ferreira

40 anos 

Técnica de comunicação 

Escrevo desde que me lembro para os outros, porque faz tudo mais sentido quando é para os outros. E mais ainda quando os outros me dizem que podiam ter sido eles a escreverem o que eu escrevi. Só faz sentido escrever quando há quem nos queira ler. 

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